
Existe um exercício simples que ajuda a entender a força de uma marca: retirar o logotipo.
Sem nome. Sem símbolo. Sem assinatura visual.
Ainda seria possível reconhecer quem está falando?
A pergunta parece estranha em um mercado que investe tanto tempo discutindo identidade visual, mas toca em um ponto importante. O logotipo é uma das formas de reconhecer uma empresa. Não deveria ser a única.
Uma reflexão publicada pelo Mundo do Marketing trouxe um exemplo interessante durante a Copa do Mundo. Por exigências relacionadas aos naming rights, marcas que normalmente dão nome a grandes estádios deixaram temporariamente suas fachadas. Os nomes oficiais das arenas voltaram a aparecer, mas isso não significou necessariamente que as marcas desapareceram da cabeça do público. Muitas continuaram sendo associadas àqueles espaços mesmo sem estarem fisicamente estampadas neles.
É uma situação que ajuda a separar duas coisas que o marketing frequentemente trata como sinônimos.
Visibilidade e memória.
Uma marca pode aparecer muito e ser pouco lembrada. Também pode desaparecer por alguns instantes e continuar perfeitamente reconhecível.
A diferença está no que foi construído antes.
Marca não é aquilo que você mostra. É aquilo que fica.
Durante muito tempo, construção de marca esteve fortemente associada à exposição. Mais mídia significava mais reconhecimento. Mais campanhas significavam maior presença. Mais pontos de contato significavam uma marca supostamente mais forte.
A exposição continua importante, claro. O problema está em acreditar que ela, sozinha, constrói significado.
O estudo Kantar BrandZ citado pelo Mundo do Marketing ajuda a explicar essa diferença. Entre os atributos associados às marcas mais valiosas estão a capacidade de serem significativas para as pessoas, diferentes dos concorrentes e facilmente lembradas.
Isso coloca a discussão em outro lugar.
Não basta perguntar quantas pessoas viram uma campanha. É preciso entender o que elas associaram à marca depois que a campanha terminou.
É nessa distância entre exposição e lembrança que o branding realmente acontece.
Pense em algumas das marcas mais reconhecidas do mundo. Muitas conseguem ser identificadas antes mesmo que seu nome apareça. Pode ser uma frase, uma embalagem, uma fotografia, uma música, uma forma de atender ou até uma determinada maneira de responder nas redes sociais.
Existe uma assinatura.
Não necessariamente gráfica.
A marca começa a aparecer nos detalhes.
A identidade verbal também constrói reconhecimento
Esse talvez seja um dos pontos menos explorados por muitas empresas.
Existe muito cuidado na escolha das cores, tipografia, aplicações do logotipo e elementos gráficos. Tudo isso importa. Mas quando chega o momento de escrever, cada área da empresa parece falar de uma maneira diferente.
O site tem um tom.
O Instagram tem outro.
O comercial fala de outra maneira.
O atendimento responde como achar melhor.
A apresentação institucional parece pertencer a uma quinta empresa.
Visualmente, talvez exista consistência. Verbalmente, não existe marca.
O artigo do Mundo do Marketing chama atenção justamente para a identidade verbal como parte dessa construção. A maneira como uma organização conversa também expressa seus valores e ajuda a definir como ela será percebida.
Isso significa que branding também está nas palavras escolhidas, no nível de formalidade, no tipo de humor, nas histórias contadas e até naquilo que uma empresa decide não dizer.
Quando essa linguagem é consistente, começa a acontecer algo interessante.
O público reconhece a marca antes de procurar pelo logo.
Experiência é branding, mesmo quando o marketing não está olhando
Existe ainda outra camada nessa discussão.
Muitas das experiências que mais influenciam a percepção de uma marca acontecem longe de uma campanha.
Um atendimento que resolveu um problema rapidamente.
Uma entrega que chegou antes do prazo.
Uma reclamação ignorada.
Uma experiência ruim no pós-venda.
Um vendedor que entendeu exatamente o que o cliente precisava.
Nenhum desses momentos precisa carregar uma grande peça publicitária. Mesmo assim, todos constroem marca.
O Sicredi, usado como exemplo no artigo original, associa sua construção de marca não apenas à comunicação, mas também à presença nas comunidades, com iniciativas relacionadas à educação financeira, cultura, esporte e desenvolvimento local. São experiências acumuladas que ajudam a formar aquilo que as pessoas passam a associar à instituição.
Isso ajuda a explicar por que branding não deveria ser responsabilidade exclusiva do marketing.
A campanha promete.
A experiência confirma ou desmente.
Quando as duas coisas estão alinhadas, a percepção se fortalece. Quando não estão, normalmente é a experiência que vence.
Ser reconhecido é diferente de ser lembrado
Uma identidade visual forte pode fazer alguém reconhecer uma empresa rapidamente.
Mas reconhecimento não é necessariamente memória afetiva.
Uma pessoa pode identificar perfeitamente uma marca e não sentir absolutamente nada por ela.
É aí que entram as experiências, a cultura, o posicionamento e a consistência.
Marcas fortes conseguem criar associações. Quando pensamos nelas, outras ideias aparecem junto. Segurança. Diversão. Performance. Inovação. Exclusividade. Proximidade. Rebeldia. Simplicidade.
Essas associações não surgem de uma campanha isolada.
São construídas por repetição coerente.
Cada campanha adiciona alguma coisa.
Cada produto adiciona alguma coisa.
Cada conversa adiciona alguma coisa.
Cada experiência também.
A marca é o resultado desse acúmulo.
E se o seu logo desaparecesse amanhã?
Talvez essa seja uma pergunta mais interessante para uma reunião de marketing do que discutir qual será o próximo post.
Se o logotipo da empresa desaparecesse de todas as comunicações amanhã, o público ainda reconheceria a marca?
Pelo jeito de escrever?
Pela experiência?
Pelo posicionamento?
Pela forma de atender?
Pelos assuntos que escolhe defender?
Pelas histórias que costuma contar?
Se a resposta for não, talvez exista uma identidade visual bem construída, mas ainda exista bastante espaço para construir marca.
Porque branding começa justamente quando o logotipo deixa de precisar fazer todo o trabalho.
Conclusão
Uma marca forte não é aquela que precisa aparecer o tempo inteiro para ser reconhecida.
É aquela que deixou alguma coisa quando apareceu.
Uma sensação.
Uma experiência.
Uma maneira de falar.
Uma história.
Um significado.
O logo ajuda as pessoas a identificar quem você é.
Mas é tudo aquilo que acontece ao redor dele que faz alguém lembrar por que sua marca importa.
E, no fim, essa talvez seja uma das melhores medidas de branding:
quando a identidade visual desaparece, o que continua presente?
Fonte de referência: Mundo do Marketing, Marca é aquilo que as pessoas lembram quando o logo não está presente.
Bruno Santos
Diretor Comercial e estrategista digital Especialista em consultoria estratégica, identifico tendências de mercado e analiso o comportamento do consumidor e da concorrência para criar soluções personalizadas. Minha abordagem foca em desenvolver estratégias de mídia (orgânica, Ads, online e offline) que geram lucros e resultados tangíveis.